Da janela
da cozinha *
Beatriz Pazini
Ferreira **
Crianças brincando na rua. Cordas balançando em movimento horário,
a calçada sendo riscada com pedaço de cal para começar a
brincadeira de amarelinha. Meninas trocando roupinhas de boneca.
Martelo, parafuso e as rodinhas: o carrinho de rolimã ganhava vida.
Bola feita de meia, outra bola, a do colega mais travesso comprada
na vendinha da esquina, assim, a pelada da rua iria começar. A
vizinha varrendo a calçada da rua, os gatos em cima do muro
ronronando, o bando de pardais se estranhando no topo das árvores,
onde folhas caíam desesperadamente, pois a chegada do outono
invadia o palco da vida. E ali, ele apenas observava o acontecer de
todo o dia.
A tarde se passava, o sol
esmaecia cada vez mais, a cor do céu azul mudava para cinza opaco
anunciando que a tarde já se fora e a noite apenas começara. E ele
ali sentado, sendo balançado por sua rede pelos movimentos do seu
corpo.
Quando não estava em pé diante do
muro que separava a calçada de seu quintal, estava escondido atrás
da janela da cozinha; sim, porque talvez tivesse medo de ser pego
observando algo que não poderia ver...
O tempo foi passando e aquelas
crianças inocentes com suas brincadeiras infantis, ganharam corpos
de adolescentes querendo ser adultos experientes e suas atitudes
foram mudando. No lugar da corda, a sainha curta e o batom para
chamar a atenção dos garotos; no lugar da bola, um cigarro para
atrair as pequenas fêmeas que estavam no cio.
Depois da metamorfose, toda aquela
bicharada se entrelaçava com muita intensidade como só os animais
sabem fazer. E ele, de sua janela, apenas observava.
Para algumas garotinhas não bastava
apenas ficar ali na rua de frente às suas casas: queriam ir à
caçada, divertir-se e chegar ao êxtase, sentir o gostinho de viver
como animais noturnos. Por isso, elas com todas aquelas garras como
de felinas pulavam os muros das casas, colocando à mostra suas
vergonhas. E ele apenas observava da janela da cozinha com a luz
acesa, pois já era de madrugada. Permanecia assim um pequeno vulto
que se movimentava.
Ele poderia não dormir, estava
sempre pronto para olhar qualquer coisa, mesmo que não fosse
interessante, pois queria apenas observar. Espreitar a chegada das
fêmeas, agora com seus machos, e atrás das árvores o vergonhoso
acontecia. Ele estava ali parado, olhando pela janela da cozinha
tudo o que acontecia e o que iria acontecer.
Fim da madrugada. O chirriar dos
grilos dava lugar ao canto do galo indicando a chegada do nascer do
sol. O cheiro do café invadia as ruas, unindo-se com o barulho do
ônibus, levando os trabalhadores para a empreita de todo o dia. A
manhã estava bem mais fria, o vento frio e seco soprava lentamente,
pois o outono se foi e o inverno dava sinal de vida... Mas que vai
embora rapidamente. Essa não é a estação preferida de quem gosta
das aventuras da noite.
Novamente a vizinha abre o portão
para varrer a calçada da rua e fica ali solitária olhando de um
lado para outro, buscando encontrar, talvez, alguma criança a
brincar. Seu olhar era triste como o balançar de sua vassoura, a
tristeza invadia seus olhos fazendo com que lágrimas deslizassem
pelo seu rosto. E ele observava aquela situação, porque já não
havia mais crianças, restavam apenas os pequenos adolescentes a
descobrir o mundo dos adultos.
Os gritos dos meninos inocentes
foram trocados por palavrões e maus dizeres. Ele viu toda a
angústia da vizinha, logo depois ouviu o barulho do portão,
acusando que ela já havia entrado em casa e só restaria a rua vazia
e o pôr-do-sol anunciando que a noite chegaria. Bastavam as
estrelas do céu e a lua dar as boas vindas para que mais uma vez os
rapazes e as moças saíssem novamente para a caçada.
Já não era preciso pular as janelas
para fugir de casa, as meninas, agora mulheres, poderiam sair sem
medo e os rapazes já não precisavam mais beber e fumar com grande
receio, pois a idade concedia a permissão. E ele apenas observava a
sensação de liberdade que começou a existir naqueles jovens.
Os rapazes e as moças se agarravam
com muita intensidade, como se aquele momento fosse acabar em
alguns instantes. A noite caiu e a orgia novamente começava. E ele,
como de costume, observava pelo canto da janela. A madrugada se
aproximou, ele viu que aqueles jovens ainda estavam na rua, só que
desta vez deitados na calçada querendo se levantar, e mais alguns
instantes não estavam mais por lá.
O tempo girava, o sol e a lua
desciam e subiam, o bando de pardais se estranhavam no topo das
árvores, os gatos se enlaçavam no muro, a vizinha limpava a calçada
da rua. Um novo dia começava. Só que, desta vez, ele não observava
mais: o destino lhe reservava o pior, a cegueira e a
cadeira-de-rodas. Agora, permanecia apenas sentado e nunca mais
poderia ver da janela da cozinha, atrás do muro, o acontecer da
rua. Em alguns instantes ouviu gritos de algumas crianças que
estavam a brincar de bola. Ouviu também as meninas brincarem de
pular cordas, amarelinha, mostrando que um novo ciclo havia
começado. Talvez os pais daquelas crianças fossem aqueles rapazes e
moças que se divertiam na calada da noite.
As folhas e galhos das árvores
secos já não caíam mais e pequenos botões de rosas e flores se
abriam. Era a chegada da primavera. Restaram somente as folhas
secas grudadas no chão da estação passada. Agora ele apenas
escutava o leve varrer da calçada da vizinha, ouvia o canto das
cigarras, dos pardais, o ronronar dos gatos, os gritos das
crianças... Sentiu uma lágrima rolando pelo seu rosto, que sobre os
joelhos caiu quando ouviu o portão se fechar. E seguiu a vida
lembrando-se do tempo em que ele apenas observava...
* Conto apresentado no Varal
Literário da 3a JIOP.
** Discente do 4º ano do curso de
LETRAS da Universidade Estadual de Maringá- UEM.
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