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Literatura e história: "Fado tropical" de Chico Buarque  (Literatura e ensino) escrito em segunda 21 junho 2010 13:30

chico buarque

Para Luciana Fagion - que indicou o vídeo. Valeu!

 

Os significados de um texto dependem  de vários fatores, variando de acordo com o tempo histórico (de sua produção e leitura), o espaço (seja o geográfico ou do suporte/da mídia em que é publicado) e o perfil do leitor (que varia conforme sua idade, gênero e bagagem cultural); em outras palavras: um texto poderá ter diferentres sentidos conforme o contexto em que é realizada a sua recepção, ou seja, a sua leitura. Ter consciência desse fato é muito importante, especialmente quando nos aproximamos da obra de Chico Buarque, cujas músicas foram, em grande medida, escritas sob encomenda (para trilhas de filmes ou peças de teatro) ou eram parte integrante de textos teatrais - como Roda Viva, Calabar, Ópera do Malandro e Gota d'água. Um exemplo: quando "Mulheres de Atenas" passou a ser ouvida nas rádios, descontextualizada da peça teatral para a qual foi escrita, muitas pessoas - especialmente feministas pouco atentas - consideraram-na, equivocadamente, uma composição machista, pois não perceberam a ironia existente nela. No caso do vídeo acima, temos um caso de interessante releitura e recontextualização da música "Fado tropical", que originalmente é a fala de um dos personagens da pela Calabar, escrita por Chico Buarque juntamente com Ruy Guerra durante o período da ditadura militar iniciada com o golpe de 1964.

 

FADO TROPICAL

Composição: Chico Buarque/ Ruy Guerra

Oh, musa do meu fado
Oh, minha mãe gentil
Te deixo consternado
No primeiro abril

Mas não sê tão ingrata
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

"Sabe, no fundo eu sou um sentimental
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo ( além da sífilis, é claro).
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar
Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora..."

Com avencas na caatinga
Alecrins no canavial
Licores na moringa
Um vinho tropical
E a linda mulata
Com rendas do alentejo
De quem numa bravata
Arrebata um beijo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

"Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto.

Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto.

Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadora à proa
Mas meu peito se desabotoa
E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa".

Guitarras e sanfonas
Jasmins, coqueiros, fontes
Sardinhas, mandioca
Num suave azulejo
E o rio Amazonas
Que corre trás-os-montes
E numa pororoca
Deságua no Tejo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial

 

No contexto original da peça, "Fado tropical" é extremamente irônica, expressando - até com certo deboche - o desejo das elites brasileiras de quererem ser "civilizadas" nos moldes europeus (ou norte-americanos, considerando-se o momento histórico em que a peça foi escrita e apresentada), assim espelhando-se na cultura do colonizador, com o qual não rompem os laços de dependência.  Na recontextualização feita por quem produziu o vídeo acima, esse significado histórico é totalmente invertido. Ao colocar imagens que nos remetem a Revolução dos Cravos, golpe que derrubou o governo fascista de Oliveira Salazar em 25 de abril de 1974, o desejo de que o Brasil torne-se, um dia, um "imenso Portugal" perde sua conotação autoritária e repressiva, sua postura subserviente ao colonialismo português (referido ao momento histórico da ação dramática) ou norte-amerticano (referido ao momento histórico da encenação da peça) e passa a ganhar uma conotação utópica e revolucionária de caráter socialista: o desejo de que o Brasil se transforme em um imenso Portugal passa a ser o desejo de que aqui ocorra, um dia, uma revolução similar, de inspiração socialista. A canção que inicialmente denuncia a barbárie da colonização portuguesa passa a ser utópica e a ironia altera-se radicalmente. Em vez do repúdio ao  imperialismo português,  passamos à admiração do seu momento heróico e revolucionário... Se num primeiro momento mirar-se em Portugal significava subserviência ao imperialismo capitalista e adesão ao autoritarismo local, no segundo momento passa a significar resistência ao autoritarismo local e ao imperialismo capitalista. Que ironia... De modelo de conservadorismo, Portugal passa a modelo de espírito revolucionário. Brilhante releitura!

marciano lopes

Para saber sobre a Revolução dos Cravos, clique aqui.

 

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5 comentário(s)

  • Maria Celeste mailto

    Qui 23 Mai 2013 23:33

    Divino!!! Apesar de conhecer alguns trechos desta letra e conhecer a música que me ficou na memória mesmo após tanto tempo, não conhecia (infelizmente) a história desta canção. Fiquei feliz por a ouvir e "sentir" como ela é cantada pela voz inconfundível de Chico Buarque que eu admiro!
    Parabéns!

  • Luiz Carlos mailto

    Ter 16 Out 2012 15:19

    Finalmente encontro uma análise correta dessa letra. Aliás, por isso gosto das canções do Chico cantadas por ele mesmo. Porque ele empresta à interpretação a ironia no tempo exato da música. Sempre entre o deboche e a displiscência servil à ironia do próprio personagem português que esconde o orgulho e a indiferença sob a idéia da misericórdia meritória.

  • Gabriela

    Seg 25 Jun 2012 15:03

    adorei

  • josé saldanha

    Qua 14 Mar 2012 23:43

    Pessoalmente, penso que a leitura correcta será uma outra ainda: Chico sempre gostou de Portugal, e de algum modo se reconhece neste pequeno país europeu. Acredito que, ainda que escrita no tempo da ditadura de Salazar, não deixa de ser uma homenagem súbtil ao «portuga» que, ao contrário de outras nações coloniais, tem «um coração com um sereno jeito» e «de tal maneira que, depois de feito, desencontrado, ele mesmo se contesta.»

  • Suse Portes

    Qua 15 Fev 2012 16:08

    Muito perspicaz suas observações, muito bem contextualizadas. Parabéns.


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