Neste 3º programa sobre a intertextualidade, Outras Palavras focaliza este fato como decorrência da retomada - ao longo do tempo histórico - de um ou mais temas literários através de uma imagem com caráter simbólico (ou alegórico) que se repete no transcorrer do tempo histórico. Este é o caso, por exemplo, da constante retomada e reatualização da famosa imagem da "pedra no meio do caminho" imortalizada na Divina Comédia de Dante Aleghieri:
"Nel mezzo
del camin de nostra vita
mi retrovai per una selva oscura"
– ou seja: “No meio do caminho de nossa vida / me encontrei em uma selva escura”.
A imagem da "pedra no meio do caminho" é retomada inúmeras vezes na história da literatura ocidental. Tratando-se da nossa literatura, ela está, por exemplo, no soneto “Nel mezzo del camin”, de Olavo Bilac, ganhando uma significação totalmente diferente daquela que tinha no poema de Dante Alighieri.
Outro exemplo é o famoso poema de Drummond que nos fala que “tinha uma pedra no meio do caminho”. Poema que inspirou o nome do grupo No Meio do Caminho assim como as duas composições que seguem e que representam diferentes tratamentos dados ao tema por diferentes membros do grupo:
1) No meio do caminho, composição de Dré Camargo com letra dele e de Marciano Lopes (bem meio a meio), apresentada no Femucic de 2004 por Dré Camargo e Cíntia Regina dos Santos.

Dré Camargo e Marciano Lopes
Troféu de participação no Femucic 2004
Canção: "No Meio do Caminho"
2) O muro, poema concreto de
Marciano Lopes musicado por Sansão e interpretado por ele e Dr.
Zoid. Participação especial, no fim da gravação, de Mário
donLeal.
Note-se que nas duas canções o obstáculo que se interpõe
no caminho do poeta tem uma dimensão tanto existencial quanto
política, no entanto o tratamento poético e ideológico dado ao
tema é diferente. Diversamente da primeira, na segunda não há
nenhum lirismo. Em "O muro", o sujeito poético não sonha pular o
muro, mas destruí-lo e – neste caso – a poesia é pedra
que para isto serve.
Marciano Lopes
NO MEIO DO CAMINHO
(Letra: Dré Camargo e Marciano
Lopes
Música: Dré Camargo)
No meio do caminho,
a palavra do acordado.
Liberdade, libertário,
uva e vinho.
No meio do caminho,
a canção do iniciado.
Realista, imaginário,
silêncio e grito.
Lírios líricos.
Frutos saborosos.
Dizer que fraquejei,
não é do meu ócio.
Cio sinhô si é que viu!
Tristeza foi d'outro lado...
Quanto amargo engoliu,
mas cuspiu no passado!
No meio do caminho,
o libelo dos cassados.
Bardos, rebeldes,
cóndor com dor.
No meio do caminho,
o canto das sereias.
Pedras, abrolhos,
desejo e medo.
Em meio ao torvelim,
arautos do senhor.
Laços, algemas,
opressão e sonho.
Lutei, lutei.
Duros dias fúteis.
Se um dia eu errei,
foi púrpuro mito.
E hoje a pedra pulei.

Poema "O muro", de Marciano Lopes










Comentários