Home Data de criação : 09/04/30 Última atualização : 12/05/23 04:39 / 260 Artigos publicados

Intertextualidade em questão: Fernando Pessoa e Ricardo Corona  (Literatura e ensino) escrito em quarta 24 junho 2009 20:57

Fernando Pessoa, Intertextualidade, Marciano Lopes, Ricardo Corona, Vera Líghia


Blog de outraspalavras : REVISTA OUTRAS PALAVRAS, Intertextualidade em questão: Fernando Pessoa e Ricardo Corona

O programa Outras Palavras põe em destaque o conceito de intertextualidade. Para explicá-lo, traz para vocês os poemas "Pessoa ruim", de Ricardo Corona, e "Poema em linha reta", de Fernando Pessoa – heterônimo Álvaro de Campos. O primeiro na interpretação de Marciano Lopes e o segundo na de Vera Líghia Fernandes de Souza.  

A intertextualidade ocorre sempre que um texto dialoga com outro, citando-o forma clara e explícita ou de forma subentendida, nas entrelinhas. No presente exemplo, existe um diálogo explícito entre os dois poemas. O do curitibano Ricardo Corona faz várias referências ao de Fernando Pessoa: primeiro cita o nome do poeta (Pessoa), depois o título do poema (em linha reta) e, assim como o eu-lírico Álvaro de Campos, o eu-lírico do poema "Pessoa ruim" também nunca foi campeão em nada, também vive levando porrada e, revoltado, também extrai de sua dor e de seu ódio a força necessária à criação poética.  


Pessoa ruim

ricardo corona

Nunca fui campeão de nada
Vim pela rota mais rota
Fui até a última encruzilhada
Topei um pacto com o capeta
Em troca nunca me faltou caneta
Sou o escriba do poema em linha reta
Tudo que fiz foi levando porrada
Não escrevo o certo por linhas tortas
Escrevo a obra de quem dobra a esquina errada
Escrevo pra não ser chamado de poeta
Escrevo como quem se ri e espera
A colisão dos planetas
O descarrilo do trem
Escrevo como quem amaldiçoa almas
Amém

 

Poema em linha reta

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


Conforme observação do autor (feita por e-mail), o adjetivo ruim (do título do poema) é uma auto-ironia que desconstrói tanto o significado de plágio quanto o de originalidade, atitude que orienta  a proposta conceitual do CD (daí a razão do título: Ladrão  de fogo). Trata-se de uma poesia que se constrói com base na intertextualidade, ou seja, na apropriação que Ricardo Corona faz de fachos luminosos dos poemas de outros poetas. Com essa prática, ele coloca em xeque as ideias de plágio e originalidade.

marciano lopes

Para quem interessar, o cd LADRÃO DE FOGO, lançado em 2001 pela EDITORA MEDUSA, pode ser adquirido através desta. Para tanto, escreva para o seguinte e-mail: editoramedusa@hotmail.com

Compartilhar

Faça um comentário!

(Opcional)

(Opcional)

error

Importante: comentários racistas, insultas, etc. são proibidos nesse site.
Caso um usuário preste queixa, usaremos o seu endereço IP (38.107.179.230) para se identificar     

Nenhum comentário
Intertextualidade em questão: Fernando Pessoa e Ricardo Corona


Abrir a barra
Fechar a barra

Precisa estar conectado para enviar uma mensagem para outraspalavras

Precisa estar conectado para adicionar outraspalavras para os seus amigos

 
Criar um blog