
O programa Outras Palavras põe em destaque o conceito de intertextualidade. Para explicá-lo, traz para vocês os poemas "Pessoa ruim", de Ricardo Corona, e "Poema em linha reta", de Fernando Pessoa – heterônimo Álvaro de Campos. O primeiro na interpretação de Marciano Lopes e o segundo na de Vera Líghia Fernandes de Souza.
A intertextualidade ocorre sempre que um texto dialoga com outro, citando-o forma clara e explícita ou de forma subentendida, nas entrelinhas. No presente exemplo, existe um diálogo explícito entre os dois poemas. O do curitibano Ricardo Corona faz várias referências ao de Fernando Pessoa: primeiro cita o nome do poeta (Pessoa), depois o título do poema (em linha reta) e, assim como o eu-lírico Álvaro de Campos, o eu-lírico do poema "Pessoa ruim" também nunca foi campeão em nada, também vive levando porrada e, revoltado, também extrai de sua dor e de seu ódio a força necessária à criação poética.
Pessoa ruim
ricardo
corona
Nunca fui campeão de nada
Vim pela rota mais rota
Fui até a última encruzilhada
Topei um pacto com o capeta
Em troca nunca me faltou caneta
Sou o escriba do poema em linha reta
Tudo que fiz foi levando porrada
Não escrevo o certo por linhas tortas
Escrevo a obra de quem dobra a esquina errada
Escrevo pra não ser chamado de poeta
Escrevo como quem se ri e espera
A colisão dos planetas
O descarrilo do trem
Escrevo como quem amaldiçoa almas
Amém
Poema em linha reta
Fernando
Pessoa
(Álvaro de
Campos)
Nunca conheci quem tivesse levado
porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em
tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes
vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar
banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das
etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem
pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas
ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi
vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Conforme observação
do autor (feita por e-mail), o adjetivo ruim (do título do poema) é uma
auto-ironia que desconstrói tanto o significado de plágio quanto o
de originalidade, atitude que orienta a proposta conceitual
do CD (daí a razão do título:
Ladrão de fogo).
Trata-se de uma poesia que se constrói com base na
intertextualidade, ou seja, na apropriação que Ricardo Corona faz
de fachos luminosos dos poemas de outros poetas. Com essa
prática, ele coloca em xeque as ideias de plágio e
originalidade.
marciano lopes
Para quem interessar, o cd LADRÃO DE FOGO, lançado em 2001 pela EDITORA MEDUSA, pode ser adquirido através desta. Para tanto, escreva para o seguinte e-mail: editoramedusa@hotmail.com










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