Home Data de criação : 09/04/30 Última atualização : 13/10/08 12:05 / 299 Artigos publicados

Olavo Bilac & João Cabral - parte 1  (Literatura e ensino) escrito em quarta 18 agosto 2010 21:08

Classicismo, Ivan Teixeira, Lírica moderna, Modernismo, Neoclassicismo, Olavo Bilac, Parnasianismo, João Cabral de Melo Neto, Lirismo

A permanência de valores clássicos na poesia cabralina

 

 Marciano Lopes e Silva (UEM)

 

Resumo: O objetivo geral desta lição é apresentar algumas características da poética e do estilo clássicos, que surgidos na Antiguidade greco-romana, são retomados constantemente na história literária do Ocidente. Seus objetivos específicos são tratar da permanência desta poética na poesia de Olavo Bilac e João Cabral de Melo Neto. Para isso, o procedimento adotado é o da comparação de metapoemas de ambos, destacando-se “Profissão de fé” e “A um poeta”, de Olavo Bilac, e “O ferrageiro de Carmona” e “Antiode”, de João Cabral. Este recorte do campo literário se justifica pelo fato de que: 1) os valores da arte clássica encontram-se no fundamento da arte do Renascimento, do Barroco, do Arcadismo e do Parnasianismo, permanecendo vivos mesmo após o Modernismo com suas vanguardas; 2) a poesia de Olavo Bilac é representativa do Parnasianismo e, por isso, serve muito bem para a realização deste diálogo entre o estilo clássico, conforme retomado no Parnasianismo brasileiro, e a poética de João Cabral de Melo Neto – representativa da poesia da geração modernista de 45.


A excelência da linguagem consiste em ser clara sem ser chã. (Aristóteles, Poética)

 
Se não posso nem sei respeitar o domínio e o tom de cada gênero literário, por que saudar em mim um poeta? Por que a falsa modéstia de preferir a ignorância ao estudo? (Horácio, Epístola aos Pisões)


No estilo sublime não devemos descambar para vocabulário sórdido e repugnante, a não ser constrangidos por necessidade absoluta, mas conviria usar expressões à altura do assunto e imitar a natureza, que, ao moldar o homem, não dispôs em nossa face as partes vergonhosas, nem as excreções de todo o corpo, mas ocultou-as quanto pôde e, segundo Xenofonte, desviou para o mais longe possível os canais delas para de maneira alguma macular a beleza do conjunto da figura. (Longino, Do sublime)

 

1.      Introdução

 

Uma das ironias que se faz presente nos meios literários e acadêmicos é a valorização da poesia cabralina junto à condenação da poesia bilaquiana. Estas duas considerações críticas quando colocadas lado a lado e consideradas com a devida atenção revelam um contra-senso. Pode não parecer, mas há uma forte contradição entre rejeitar Bilac e ascender incensos a João Cabral. Para demonstrar esse ponto de vista, comecemos lendo algumas considerações feitas por Ivan Teixeira em seu ensaio “Em defesa da poesia (Bilaquiana)”:

 

(...) Depois do Modernismo, raros leitores de bom nível conseguiram apreciar os poetas do Parnaso brasileiro. Bilac, Raimundo Correia, Alberto de Oliveira, Vicente de Carvalho, Francisca Júlia... todos previamente recusados, sob  pretexto de que são frios, mecânicos, superficiais, formalistas, retrógrados, previsíveis, burgueses etc. Repetem-se hoje os estereótipos criados pela estratégia de combate modernista há mais de oitenta anos (TEIXEIRA, 1997, p. XII – XIII).

 

(...) a complexidade do problema da poética parnasiana adensa-se com a chamada Geração de 45, que propôs, polemicamente, um retorno ao rigor formal de Olavo Bilac, como estratégia de oposição a um suposto afrouxamento do verso modernista. Retomaram-se, então, as formas fixas e os versos metrificados dos parnasianos. Nesse período, o soneto voltou a ser praticado, e consolidou-se quase um Neo-parnasianismo. É o caso de Ledo Ivo e Geir Campos. Inegavelmente João Cabral de Melo Neto vincula-se ao ressurgimento dessa poética nos anos 40, o que se observa sobretudo em sua obsessão pela métrica regular e pela simetria das estrofes. Original em tudo, Cabral soube se inspirar na objetividade parnasiana, sem se confundir com ela. Talvez mais por identidade espontânea do que por apropriação de posturas, Cabral, tal como Bilac, demonstra muito gosto em tematizar o próprio fazer poético, o que atualmente se chama metalinguagem. Nesse sentido, seria revelador um cotejo entre textos como “Profissão de fé” e “A um artista” [sic], do primeiro, e “Alguns toureiros” ou “Ferrageiro de Carmona”, do segundo (TEIXEIRA, 1997, p. XV).

 Na conclusão de seu ensaio, Ivan Teixeira tece a seguinte consideração que aponta para o anacronismo da visão condenatória da poesia de Bilac baseada no argumento da previsibilidade (o que equivale à falta de originalidade):

Surpreendentemente, Bilac ainda hoje é atacado sob pretexto de previsibilidade construtiva ante a suposta imprevisibilidade da criação pós-moderna, que não parece tão liberta quanto se supõe. Bilac deve ser lido como um poeta declaradamente clássico. Formou-se pelas poéticas do século XVIII, que entendiam a poesia como usuária dos lugares-comuns da retórica antiga, aos quais ele adicionou algo da sensibilidade romântica. (TEIXEIRA, 1997, p. L).

Assim como Bilac, Cabral também se filia confessadamente à tradição da arte Clássica. Isso pode ser comprovado seja através da análise crítica de inúmeros metapoemas (poemas cujo tema é o fazer poético) que – no seu conjunto – formam a sua poética, seja através de suas declarações públicas, em entrevistas ou conferências, por exemplo. Veja-se, em especial, sua conferência “Poesia e composição”, realizada em 1952 na Biblioteca de São Paulo. Nela, Cabral discorre sobre a crise da poesia brasileira na sua contemporaneidade – crise que permanece atualíssima. Ele considera – e lamenta – que não há mais “padrões universais de julgamento”, ou seja, que não há mais um conjunto de princípios comuns orientadores da criação poética e que a essa ausência somam-se a falta de rigor (falta de planejamento racional; trabalho árduo, contínuo) e de clareza para garantir a comunicabilidade.

Nas épocas felizes de validade de padrões universais de julgamento, nessas épocas felizes em que é possível circular  “poéticas” e “retóricas” (...) pode o crítico falar também de técnica, pois que há uma, geral, pode dizer da legitimidade ou não e uma palavra ou de seu plural, pois que o crítico é o melhor intérprete da necessidade que determina tal obra e a função crítica se exerce em função e tal necessidade. A ele cabe verificar se a composição obedeceu a determinadas normas, não porque a poesia tenha de ser forçosamente uma luta com a norma mas porque a norma foi estabelecida para assegurar a satisfação da necessidade. O que sai da norma é energia perdida, porque diminui e pode destruir o poder de comunicabilidade da obra realizada.

É evidente que numa literatura como a de hoje, que parece haver substituído a preocupação de comunicar pela preocupação de exprimir-se, anulando, do momento da composição, a contraparte do autor na relação literária, que é o leitor e sua necessidade, a existência de uma teoria da composição é inconcebível.  Autor de hoje trabalha à sua maneira, à maneira que ele considera mais conveniente à sua expressão pessoal. (MELO NETO, p. 724)

Para avaliar a situação do poeta na modernidade, Cabral parte do princípio de que, ao longo da história, a criação ou “composição literária oscila permanentemente entre dois pontos extremos a que é possível levar as idéias de inspiração e trabalho de arte” (MELO NETO, p. 725). Passagem bastante esclarecedora – na medida em que a sintetiza a visão visão cabralina – é a que encerra a introdução de sua conferência:

 

(...) Na literatura atual, a polarização entre essas idéias chegou a seus pontos mais extremos e é a partir desses extremos que se organizam as idéias hoje correntes sobre composição. Também cabe salientar que essas posições extremas não estão ocupadas por um só conceito de inspiração e por uma só atitude radical de trabalho de arte. A inspiração será identificada por uns como uma presença sobrenatural – literalmente – e a inspiração pode ser localizada por debaixo das justificações científicas para o ditado absoluto do inconsciente. Trabalho de arte pode valer a atividade material e quase de joalheria de construir com palavras pequenos objetos para adorno das inteligências sutis e pode significar a criação absoluta, em que as exigências e as vicissitudes do trabalho são o único criador da obra de arte. (MELO NETO, p.727-8).

 

Embora João Cabral faça a ressalva (em outra passagem do seu texto) de que não vê na luta entre essas ideias o motor da história literária, podemos considerar que, segundo seu ponto de vista (um pouco redutor, visto que simplifica o problema segundo uma perspectiva dualista), a história literária oscila entre uma criação literária que podemos identificar como sendo de tradição clássica – pois identificada com o rigor formal e o trabalho de arte e outra que, na modernidade, podemos identificar como romântica ou herdeira do pensamento romântico – mais identificada com a inspiração na medida em que valoriza a subjetividade e a expressão pessoal em busca da originalidade.


Continua na próxima postagem 

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